Prof.ª Maria Luiza Redentora:

"...Mesmo que para isso tenha que dar minha cara a tapa, e lançar-me na guerra sem armadura,
vou peitar isso tudo mesmo que fique aqui só e insegura..."

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

A respeito da paz...

Vou falar sobre a guerra. Vasculhando as coisas do meu irmão outro dia, a procura de um antigo jogo, encontrei diversos livros ótimos guardados em um lugar que eu jamais imaginaria. Entre eles eu encontrei um chamado "Vozes Roubadas", havia também "1984", "Revolução dos Bichos", "Capitães da Areia". O livro é muito interessante! Ele traz compilado diversos diários que crianças e jovens, em diversas guerras, escreveram, desde a primeira guerra mundial, até a mais recente invasão do Iraque, passando pela segunda guerra, Vietnã e Intifada.


Este é um trecho do diário de Piete Kuhr (12 anos) na Alemanha, em 14 de Agosto de 1914:


"Agora há barricadas nas pontes das nossas estações de trem. Por toda a parte há sentinelas. Nas pontes há cartazes que dizem "Dirijam Devagar!". Todo motorista é interrogado e todo veículo, revistado. Ninguém que esteja atravessando uma ponte pode demorar-se sobre ela. Trens militares passam por sobre as pontes. Subitamente tem-se a sensação de que o inimigo está bem próximo.
(...)
Novos refugiados chegaram da Prússia Oriental. Desta vez eu os vi com os meus próprios olhos, mães, crianças, velhas e velhos. Alguns bem vestidos, outros, mal. Todos traziam trouxas e malas, roupa de cama, casacos e malas, tudo amarrado junto. O posto da Cruz Vermelha na estação cuida dos refugiados.
Uma mulher com crianças barulhentas ficava gritando "Para onde podemos ir? Para onde ir?". Desejei a ela boa sorte e disse: "Não se preocupe o imperador cuidará de todos nós!". "Pobre menina", disse a mulher (pronunciando-o de uma maneira esquisita), "uma criança como você não faz ideia de como é, não?" E as lágrimas correram por todo o seu rosto rechonchudo e vermelho."

Nota atrasada sob efeito de nova medicação

A vida é mais feliz quando se goza!

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Poema da saudades do pai

"Três de Maio", Goya
Outra parte de um exercício cênico
Deixar os filhos partirem não é coisa que suporta um pai;
Deixar os filhos e partir, também não é coisa que suporta um pai,
Pois terra, sangue, bomba e espada se anunciam no porvir.
Coragem, filhos nossos, coragem!
Os entregamos a guerra ou os deixamos por ela,
Mas a dor é a mesma:
Por saudades se mata;
E com saudades se morre.

Poema da angústia da mãe

Parte de um exercício cênico


O que fizemos nós para mercer tamanho sacrifício?
Entregar um filho a guerra nas mãos de generais...
Quem os ensinou a matar sem remorso?
Quem encrustou neles sangrentos ideais?

Pois fogo, ferro, bala, morte
de nossos ventres não pariram
Nossos seios alimentaram sorrisos
Mas agora vemos nossos meninos
Partindo, partindo...
Partindo outros lares,
Outras famílias

De volta dos mortos

Férias finalmente....na verdade infelizmente, mas isso não vem ao caso...
Retomo meu querido blog abandonado desde de outubro, coitadinho....
Muita coisa aconteceu neste meio tempo que valeria a pena ter sido comentado, como o vergonhoso caso da menina na Uniban, ou a morte de Levi-Strauss (foi-se a minha brincadeira de dizer que até ele ainda vivia).
Mas retomo este blog comentando a Loucura.
Na verdade me refiro a doenças psiquicas, como crises de ansiedade e pânico das quais sofri no início do ano e se agravaram no início deste semestre. Atualmente estou tomando dois anti-depressivos (um para combater efeitos colaterais do outro) e foi bastante difícil para mim falar sobre isso abertamente. Por que deveria? É assunto privado. Eu não queria que ninguém soubesse que eu estava maluco....Tá to exagerando, mas era essa a minha idéia de quem precisava de remédios para manter o controle. Mas o que mais me surpreendeu quando passei a comentar abertamente sobre isso foi que muitas e muitas pessoas estavam passando, passaram ou conheciam alguem bem próximo que também estava passando por esses mesmos problemas e tomando anti-depressivos. Não sei se isso se dá somente devido aos meus circulos socias, que envolvem basicamente artistas, que por definição tem uma sensibilidade aguçada, ou se isso é uniforme por toda a população, mas me pergunto: Que porra de mundo é esse que leva as pessoas a loucura?????? Que merda é essa de convívio social nas grandes metrópoles???? E porque diabos ainda assim amo viver em uma e não consigo me enxergar fora?!!!!!!!! AHHHH!!! ZAZ!!!! TRAZZZZ! BRUMMMMM!!!!!!! ZZZZZZZZZZZZZ!!!!!!!! E eu e barulho!

domingo, 25 de outubro de 2009

Amor — pois que é palavra essencial

"O beijo - Gustav Klimt"


Amor — pois que é palavra essencial
comece esta canção e toda a envolva.
Amor guie o meu verso, e enquanto o guia,
reúna alma e desejo, membro de vulva.

Quem ousará dizer que ele é só alma?
Quem não sente no corpo a alma expandir-se
até desabrochar em puro grito
de orgasmo, num instante de infinito?

O corpo noutro corpo entrelaçado,
fundido, dissolvido, volta à origem
dos seres, que Platão viu completados:
é um, perfeito em dois; são dois em um.

Integração na cama ou já no cosmo?
Onde termina o quarto e chega aos astros?
Que força em nossos flancos nos transporta
a essa extrema região, etérea, eterna?

Ao delicioso toque do clitóris,
já tudo se transforma, num relâmpago.
Em pequenino ponto desse corpo,
a fonte, o fogo, o mel se concentraram.

Vai a penetração rompendo nuvens
e devassando sóis tão fulgurantes
que nunca a vista humana os suportara,
mas, varado de luz, o coito segue.

E prossegue e se espraia de tal sorte
que, além de nós, além da própria vida,
como activa abstracção que se faz carne,
a ideia de gozar está gozando.

E num sofrer de gozo entre palavras,
menos que isto, sons, arquejos, ais,
um só espasmo em nós atinge o clímax:
é quando o amor morre de amor, divino.

Quantas vezes morremos um no outro,
no húmido subterrâneo da vagina,
nessa morte mais suave do que o sono:
a pausa dos sentidos, satisfeita.

Então a paz se instaura. A paz dos deuses,
estendidos na cama, quais estátuas
vestidas de suor, agradecendo
o que a um deus acrescenta o amor terrestre.

"Carlos Drummond de Andrade - em o Amor Natural"

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Sobre como eu parei de me preocupar e passei a amar a bomba

"Little Boy" - Explodiu em Hiroxima em 06 de Agosto de 1945

Texto de abertura de um exercício cênico:

- Minha apresentação é sobre a guerra, mas neste prólogo eu quero falar sobre paz. A Paz. É difícil mesmo pra mim falar sobre isso. Não sei se sou muito fraco ou sensível, mas só de ler ou assistir documentários sobre as guerras passadas, sobretudo as duas grandes guerras, fico acabado. Completamente dilacerado. Céus! Desde sempre houve guerras. É sempre a lei do mais forte. E dane-se os escrúpulos, dane-se tudo, as famílias, as crianças, foda-se, foda -se, foda-se, foda-se... Será possível que não podemos viver numa boa, viver em paz. De onde vem esse impulso de olhar para o outro e dizer “foda-se eu vou te matar, não me importa, eu quero o que é seu!”. Já passamos por tantas coisas e continuamos a fazer isso. É tão mais fácil simplesmente discordar, mas, sei lá, apertar as mãos e você pra um lado, eu pro outro. Vamo... fazer arte , educar as crianças, pesquisar a cura do câncer, mas meu, pra que ficar achando jeito de matar mais , de matar mais fácil, mais rápido. Gente, eu to cansado de tudo isso. Não aguento mais. Não aguento mais. Gente, não dá. Não é certo. Não é justo. Não é possível que ninguém faça nada. Porra, vamo viver em paz. Pra que serve a porra da ONU, esse bando de engravatado do caralho. Não aguento mais, alguém tem que fazer alguma coisa, não dá mais. Porra, sempre só se dá bem um bando de sanguinário do caralho. Foda-se então. Mete bala em todo mundo então. Pega George Bush, traficante, o caralho a quatro bota tudo no paredão e mete bala. É justo, pronto e acabou. Destrói todas as armas depois e tá feito. Chega! Sei lá, instaura uma ditadura, prende todo mundo, mete bala e pronto! Acabou. E vamo viver em paz! E vamo viver em paz !Vamo viver em paz!

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Seria Sonho

"Sonho de Poeta", de Tchalé Figueira
"Estou dormindo desperto com sonhos que são loucura porque não são sonhos."
(Álvaro de Campos)

Era noite. Fazia frio e eu estava de chinelos, embora o resto do corpo estivesse bem agasalhado. O vento gelado soprava mas só aos meus pés incomodava, torturando meu mindinho. Eu voltava com um copo quente de café com leite na mão, enquanto explicava minhas grandes ideias a minha amiga que me acompanhava. Foi quando o vi. Estirado no chão na frente da entrada do metro, uma estranha forma não se movia. O percebi. E percebi que todos a minha volta também o percebiam. Não modificavam o ritmo de seus passos, embora desviassem brevemente de seus trajetos pré-concebidos. Foquei meu olhar em seu diafragma, e depois em seu peito, esquadrinhando seu corpo a procura de vida: Estaria ele morto? Tentei diminuir meu andar, mas o olhar de minha amiga era inquisitivo “O que se há de fazer?!”. Continuei andando e logo apenas o via com minha visão periférica, até somente enxergar as rodas de jovens artistas conversando. Mas não consegui socializar. O que era - vejam o que era e não quem – aquela figura a frente da entrada do metro? Não sabia o que sentir. Vergonha por me importar? Raiva por não parar? Ódio ou tristeza por sentir pena, por não saber o que fazer? Curiosidade pelo sem sentido? Crescido em uma grande metrópole tenho meus nervos de aço, meus olhos filtram a poluída paisagem urbana de postes, fios, placas, pessoas jogadas no chão, lixo, carros estacionados, etc, mas há certas vezes que meu corpo inteiro se contorce. O que aquele o homem fazia ali? E se ele estivesse morrendo naquele exato momento? Não. Não seria possível que ele morresse ali na frente de todos sem que ninguém o acudisse. Ou seria? Prefiro pensar que ele estivesse protestando contra as graves falhas do sistema politico, ou que ele estivesse consciente que o mundo é uma grande convenção entre olhares, e se o mundo tal como ele enxerga só existe para si, talvez parando totalmente pudesse parar o turbilhonante frigorífico da vida. Talvez pensasse que ao não mover seu corpo toda sua história massacrante deixaria de existir, e se assim o fizesse por tempo suficiente o mundo inteiro se reconstruiria mais tragável. É claro que não. Ele estava lá. E eu não tinha mínima ideia do porque. Me afastei das risadas e voltei para saber dele. A essa altura três seguranças do metro já estavam a sua volta, e ele continuava estático. Riam constrangidamente por não saber o que fazer. Seus empregos exigiam que o retirassem dali, mas o homem não esboçava reação. Estava vivo – Sim! Estava Vivo! - mas não se mexia. Tentaram o levantar sem sucesso. Decidiram então, sem se falar, arrasta-lo dali , e o erguendo pelos braços e pernas, o levaram para a escura e suja área ao lado da entrada do metro, o apoiando no muro da estação, sem ele reagisse de qualquer forma. O mundo então se reconstruiu sem se dar conta do que havia passado. As pessoas não mais precisavam modificar sua rota; os seguranças voltaram a seus postos e eu , sangrando, voltei para minha aula com minha consciência já coagulada.

Um post rápido

Foi anunciado hoje o vencedor do nobel da paz: Obama. Porque? Vejamos: por propor reduzir o armamento nuclear, ao invés de extirguir. Me parece que a obamania ainda afeta a mentes dos jurados. Não que eu goste tanto assim do prêmio Nobel, que já cometeu diversas injustiças, mas assim já é demais. Obama assume a presidência vendendo mudança, continua a manter duas guerras, controla um arsenal bélico capaz de destruir a terra, não reduz os gastos militares e ainda leva o Nobel da paz...


Pois é Orwell o ministério da guerra cuida da paz.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Esta velha angústia

Estou, juntamente com minha classe no teatro, trabalhando poesias do Álvaro de Campos em nossa aula de voz. Hoje minha amiga declamou este. Há quanto tempo não o ouvia! E ele sempre assume outros sentidos que me pegam em pontos fracos. É sem dúvida um dos meus poemas preferidos.



Esta velha angústia,
Esta angústia que trago há séculos em mim,
Transbordou da vasilha,
Em lágrimas, em grandes imaginações,
Em sonhos em estilo de pesadelo sem terror,
Em grandes emoções súbitas sem sentido nenhum.

Transbordou.
Mal sei como conduzir-me na vida
Com este mal-estar a fazer-me pregas na alma!
Se ao menos endoidecesse deveras!
Mas não: é este estar entre,
Este quase,
Este poder ser que...,
Isto.

Um internado num manicômio é, ao menos, alguém,
Eu sou um internado num manicômio sem manicômio.
Estou doido a frio,
Estou lúcido e louco,
Estou alheio a tudo e igual a todos:
Estou dormindo desperto com sonhos que são loucura
Porque não são sonhos.
Estou assim...

Pobre velha casa da minha infância perdida!
Quem te diria que eu me desacolhesse tanto!
Que é do teu menino? Está maluco.
Que é de quem dormia sossegado sob o teu teto provinciano?
Está maluco.
Quem de quem fui? Está maluco. Hoje é quem eu sou.

Se ao menos eu tivesse uma religião qualquer!
Por exemplo, por aquele manipanso
Que havia em casa, lá nessa, trazido de África.
Era feiíssimo, era grotesco,
Mas havia nele a divindade de tudo em que se crê.
Se eu pudesse crer num manipanso qualquer —
Júpiter, Jeová, a Humanidade —
Qualquer serviria,
Pois o que é tudo senão o que pensamos de tudo?

Estala, coração de vidro pintado!

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Boa Noite

Noite Estrelada - Van Gogh
" Fantasio sobre começar de novo e eliminar o rótulo de mala que trago pendurado em mim..."
" Há três coisas principais que fazem de mim uma mala:
Nunca retorno telefonemas.
Sou falsamente modesta.

Carrego uma carga desproporcional de culpa em relação a essas duas coisas, o que me torna uma companhia bem desagradável. Não seria tão difícil telefonar de volta e ser mais genuinamente modesta, mas é tarde demais para esses amigos. Eles não seriam capazes de ver que não sou mais uma mala..."

" ...então não haverá redenção. Essa pessoa lamenta o fato de ter arruinado sua única chance de ser amada por todos; quando essa pessoa sobe na cama, o peso dessa tragédia parece se abater sobre o peito dessa pessoa..."

" Essa pessoa suspira. Os olhos dessa pessoa começam a se fechar, essa pessoa dorme."


(Ao menos nos contos da Miranda July)
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domingo, 4 de outubro de 2009

Luto

Me afastei um pouco do blog com o turbilhão nefasto do meu incosciente atrapalhando minha vida. Mas volto a postar. Infelizmente não por uma causa muito feliz. Morreu hoje aos 74 anos a maravilhosa Mercedes Sosa, em decorrência de complicações renais e respiratórias. Muita falta nos fará, mas na tentativa de não ficar triste e honrar sua memória com a alegria que ela nos presenteou, coloco abaixo este hino a vida, imortalizado na sua grandiosa voz.

Mercedes Sosa - Gracias a la vida
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quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Essa Foda é Foto!

"Italy 2 (Henri Cartier Bresson)"
Por que estes dois posts com fotos do Cartier Bresson? Porque descobri que começa nessa quinta feira uma exposição com diversas fotos dele na SESC Pinheiros! E além do mais ele é meu fotógrafo favorito - não que eu conheça vários, mas as fotos dele são repletas de magia, de uma aura vívida que é pura poesia. Então fica dado o recado quem quiser e puder pode conferir mais fotos do trabalho dele na exposição “Henri Cartier-Bresson – Fotógrafo”, De 17 de setembro a 20 de dezembro de 2009, no Sesc Pinheiros (Rua Paes Leme, 195), de terça a sexta, das 10h30 às 21h30; e de sábados, domingos e feriados, das 10h30 às 18h30. A entrada é franca. Informações: (11) 3095-9400.

Reviver

"Mouffetard (Henri Cartier Bresson)"
Ai! ai! Ainda não estou como o menino dessa foto, com essa alegria, esse orgulho de viver - de estar sendo - mas já sai da penumbra que me ocultou a vida nas últimas semanas. E só de olhar pra essa foto já me dá mais vontade para encarrar as coisas cotidianas.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Grafite


Segundo divulgado pela Folha de SP, no domingo de manhã (13/09) cerca de 150 pessoas realizaram um ato artístico na 23 de maio. O grupo pintou os muros, ao longo de 1 km, em protesto a política da prefeitura de pintar de cinza grafites e pichações não autorizadas.
Me chamou atenção a forma como foi noticiado este fato. Seguindo com sua linha editorial, já revelada em outros casos semelhantes, o jornal destacou a manchete: "150 PICHADORES ATACAM A AV. 23 DE MAIO EM PROTESTO". A matéria em tom policialesco, ainda trazia a opinião de um especialista que considera errada, mas válida, a ação porque a questão dos grafites precisa ser disciplinada, e a opinião de um outro grafiteiro considerado veterano que criticava a ação pois "há uma grande poluição com trabalhos mal feitos por aí".
Como revelado na foto acima, publicada na edição de hoje do jornal, um dia depois os muros já haviam sido pintados de novo, ou como rubricado na foto pela Folha, já haviam sido limpos.
Não entendo como podem preferir esse cinza a desenhos coloridos, e chega a ser risível considerar muros de concreto sujos e sem vida como limpos. Posso até concordar com a opinião de que há muitos trabalhos mal feitos por aí, nem todo grafite é uma obra prima, mas definitivamente entre muros de concreto e muros desenhados eu fico com a segunda opção.
A meu ver, no que diz respeito as artes plásticas, andar pelas ruas de São Paulo e observar seus grafites - que vá lá, é privilegiada na questão dos grafites - é uma experiência muito mais enriquecedora do que andar pelos vazios das Bienais de arte. O grafite mesmo com seu caráter efêmero, intrínseco a essa arte, é mais do que isso, é a forma com que a periferia (onde se concentra a maioria dos grafiteros) tem de gritar que ela existe, que tem sonhos, desejos, e está viva e atenta ao seu viver nessa cidade opressora. E digo mais, para mim todos os muros da cidade deveriam ser coloridos com desenhos e todos os prédios públicos deveriam contratar renomados grafiteiros para grafiterem seu exterior - fugindo um pouco da questão me vem a mente a figura da belíssima catedral de São Basílio na Rússia (hehehe mais isso é apenas um sonho da wonderland desse artista que vos fala).
Enfim, é triste ver que boa parte da sociedade, com sua visão civilizadora e regulatória, prefira viver nessa cidade cinza e sem vida, a viver em uma cidade colorida e alegre.
"Cores são exceções em desuso, no que veio pra criar e, contudo,
vem enegrecer, mas há beleza ainda eu sei..."
(Letra de Viver(Paz) de minha autoria)

sábado, 12 de setembro de 2009

Samba sobre o infinito

Estou só. A noite cai inquieta, e tudo parece perder ou engrandecer em sentido. Essa música veio bem a calhar... Silêncio por favor...

"Para ver as meninas" (de Paulinho da Viola)

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sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Paranóia

Anúncio da Pakistan Air Lines (1979)
Pois bem chegamos de novo ao fatídico dia 11 de setembro, e o mais engraçado é que eu só me dei conta da carga desse dia lendo os jornais. Para mim, passados já todos esses anos, “11 de setembro” se tornou uma ideia, um conceito, descolado do dia em si. Vejo nele um marco de quando os países ocidentais industrializados passaram a caminhar a passos largos rumo a sociedade de “1984”, de Orwell. E é sobre isso que quero falar nesse post: sobre meu medo do que virá a seguir nesse século que se inicia.
Quando paro e penso sozinho em planos malignos de dominação global – é o que eu faço todas as noites Pink! - tenho sempre a sensação de que os ditadores do passado teriam muita inveja dos aparatos de controle e repressão que possuímos hoje. Ingênuamente no mundo todo está se construindo um aparato digno de um Estado repressor. Todos nossos passos podem ser rastreados. Vejamos minha vida em São Paulo. Meu passe de transporte coletivo, o bilhete único, é cadastrado em meu nome, e portanto passível de ser rastreado, de saber por onde e quando andei. Os carros em pouco tempo, pois já foi aprovada uma lei que impõe isso, passarão a ter chips de identificação sendo monitorados por pontos da cidade. Meu telefone celular, que sempre carrego comigo, pode ser facilmente rastreado pelas torres de sinal de minha operadora. O resultado é o mesmo, o Estado, bastando querer, pode saber quando e onde eu vou no meu dia a dia. Para quase tudo hoje em dia se tem que se fazer um cadastro completo, deixando registrado que você passou por lá, informação essa facilmente rastreável. Há câmeras de segurança por todos os lados, privadas ou da prefeitura, e numa caminhada até a padaria perto de minha casa minha presença ficou registrada em sei lá quantos vídeos , que pelo menos não se armazenam por muito tempo. Por sorte, por aqui , ainda , não chegamos a situação de Nova York e Londres, onde nesse ponto, o grande olhar do “Big Brother” que é multifacetado está amplamente difundido por todos os cantos.
Temos a Internet, lar de expressão livre e do anonimato. Mas somente por que se quer assim, porque na verdade é exatamente o oposto. Navegar sem deixar rastros é tarefa para poucos que conhecem as entranhas da computação e requer muita perícia. Todos temos um endereço fixo virtual. As informações por onde andamos virtualmente ficam armazenadas em nosso provedor de internet. O próprio Google mantém durante anos um gigantesco banco de dados que revelam as preferências, interesses e gostos pessoais. E nesse ponto o caso da China e sua enorme muralha virtual se impõe como exemplo. Ainda nesse ponto virtual o tal “banco de sangue encardenado” citado por Tom Zé em “Parque Industrial” está aí para qualquer um. Todas esses sites de relacionamento pessoal (Orkut, Facebook, Twiter,...) disponibilizam informações pessoais para quem quiser e ver, e o que é mais importante do ponto de vista de um agente da Gestapo, com quem temos contato, quem conhecemos, com quem falamos (vitualmente) mais. Penso o quanto não se alegraria um agente do Doi-codi folheando as páginas do orkut, tudo tão fácil e disponível.
Em todas as áreas cada vez mais e mais, cientistas e pesquisadores se esforçam em criar artifícios para conectar e interligar as pessoas, tecnologias novas que são rapidamente incorporadas a vida cotidiana. O que me leva ao filho direto, digamos um upgrade mais atual de “1984” que é a “Matrix”. O grande anonimato que sempre definiu a vida nas grandes metropoles modernas está cada vez mais por um fio, sendo substituído por essa versão digital de cidadezinha de interior. - se bem que a cena do personagem de Orwell recebendo papeizinhos por um buraco, e reescrevendo a história quantas e quantas vezes que nem se sabe mais o que é e o que foi de fato, me parece bem válida e muitas vezes completamente atual e verídica.
Bem fechando esse post paranóico, como tudo no relativo ao 11 de setembro, me pergunto o que aconteceria se amanhã de manhã eu acordasse com tanques nas ruas em face de um golpe militar? E respondo: tudo seria tão sadicamente fácil de se controlar....

Ai se a Stasi me lesse agora!

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Você já napoleonou hoje?


Hoje acordei cedo

e puto

ordenei execuções em meu reino.

Não atirei a esmo como um suicida,

que sangra os pulsos mas não a cabeça;

Fiz sangrar o que a tempos me doía.

E botei grilhões em minhas virtudes,

para que se sintam mais santas;

E dei armas aos meus defeitos;

Para que se sintam mais humanos.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Independência

"Brasil, meu Brasil brasileiro....vou cantar-te nos teus versos" Uma composição para marcar esse dia da independência.
"Eia! Gigante âncora adormecida! Ó filha tirana da América Latina"

sábado, 5 de setembro de 2009

Encruzilhada II

"Eu não tinha ....estes olhos tão vazios, nem o lábio amargo....
...Eu não tinha este coração que nem se mostra...
...Eu não dei por esta mudaça...
Em que espelho ficou perdida minha face?"
(Cecília Meireles)

Encruzilhada

"...Mundo mundo vasto mundo, se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima não seria uma solução..." (Drummond)

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

São São Paulo

Foto: Filipe Araújo

"...Vou cultivando meu ódio e meu amor nesse engenho..." (Letra do Dessamba)

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Festivais

Me inscrevi nesses dias em alguns festivais de música pelo Brasil. Não sei o que esperar, mas não posso deixar de fazer uma referência nostálgica – Rá rá rá! eu que estava ainda longe de nascer - aos grandes festivais da canção transmitidos pela Rede Record no final dos anos 60. Escolhi essa canção por ter uma temática política, que também terá este post, e por ter ficado impressionado com a vitalidade desta interpretação - não é por menos que ganhou este concurso. Abaixo segue Jair Rodrigues interpretando “Disparada”, de Geraldo Vandré e Theo de Barros, na final do II Festival de Música Popular Brasileira, em 1966, no Teatro Record Consolação (São Paulo).

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Esses festivais sempre me impressionaram, tanto pela quantidade de talentos revelados, que marcariam o cenário musical brasileiro nas décadas seguintes, quanto pelo papel da mídia nisso tudo. Eram outros tempos, é claro, anteriores ao surgimento da massiva indústria fonográfica tupy, mas cogitar nos tempos atuais que uma emissora de televisão pudesse ter papel tão decisivo, para melhor, no cenário cultural nacional, é motivo de galhofa – e nas mentes dos marketeiros culturais de plantão até uma heresia!

Entendo claramente que o próprio formato desses festivais foi se desgastando com o tempo e com as suas reedições, mas não posso acreditar que tais iniciativas tenham sido deixadas de lado em substituição aos atuais “Fama”, “Ídolos”, e demais reality shows estúpidos e emburrecedores. Tentativas de reviver o espírito desses festivas fracassaram monumentalmente pela insistência, a começar pela escolha dos jurados – que diga-se de passagem foi um dos pontos primorosos dos antigos festivais - em se manter atrelado ao apelo pop, condenável quando para se universalizar o discurso, utiliza-se de artifícios simplórios, batidos e repetitivos. Não posso concordar com a ideia imediatista e equivocada, encravada na mente dos empresários musicais do mainstream, de que algo comercializável tenha que ter essas características. Estou cansado de ver essa máxima burra, porque acaba cavando sua própria cova (apesar de inicialmente trazer lucro), sendo repetida em todos os cantos da arte, seja na música, no teatro, na teledramaturgia, na dança, no cinema, etc. Se isso fosse correto, como explicar o sucesso desses antigos festivais? Como explicar o fato de músicas de compositores do início do século passado serem ainda inteligíveis, interessantes, divertidas, etc, para um público atual? Não afirmo isso do nada. Quantas e quantas vezes já não me deparei com crianças, aborrecentes-mtv e adultos de diversas classes sociais encantados e entretidos com canções de Noel Rosa que eu estava executando. Tudo bem, e faço essa ressalva, que há o efeito do exótico, do novo (para eles) e da presença de palco, mas, será mesmo que precisariam estes viver escutando a pornoxanxadas de quinta categoria, porque os departamentos de vendas julgam que só assim irão lucrar? Com a arte e o consumo musical pulverizados, se vai cada vez mais baixo na tentativa de ser universal (vender para todos), ou apela-se para o internacional, onde a maioria gosta na ignorância (não se sabe -o que no final não importa- o que se canta, apenas ritmo e melodia).

Será possível que não aprenderam nada com o Tropicalismo?!

Bem, mas são outros tempos. Tempos de internet! Onde se pode divulgar um trabalho com facilidade! Onde existe a possibilidade se dirigir a milhares diretamente! Só que tudo é por demais atomizado e as informações se perdem...

Ao menos, em meio a isso tudo, ainda existem festivais em diversas cidades brasileiras, com maior ou menor repercussão, para que esse impulso de incentivo a música e aos novos talentos não se acabe. Porque se depender da atual mídia de massas.................(prefiro não terminar essa sentença).

terça-feira, 1 de setembro de 2009

A Condição Humana

"A condição humana" - René Magritte
Precisei decorar para minha aula de teatro um poema do Alberto Caeiro (Fernando Pessoa). Ele é um poeta materialista que despreza o pensamento filosófico e metafísico ("pensar é estar doente dos olhos"). Escolhi este abaixo, o que me levou a pensar: Seria tangível o que ele propõe e o que o quadro do Magritte parece apontar (no quadro se vê parte do mundo exterior além do quadro)? Existe a coisa em si para além do olhar humano? Existe a apreensão do mundo sem representação? Acredito que não. O real é um pacto entre os olhares...


"Poemas Inconjuntos" (1913-1915)

Não basta abrir a janela

Para ver os campos e o rio.

Não é bastante não ser cego

Para ver as árvores e as flores.

É preciso também não ter filosofia nenhuma.

Com filosofia não há árvores: há ideias apenas.

Há só cada um de nós, como uma cave.

Há só uma janela fechada, e todo o mundo lá fora;

E um sonho do que se poderia ver se a janela se abrisse,

Que nunca é o que se vê quando se abre a janela.

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Até quando esperar?

Saiu hoje o Ranking da Webometrics que considera USP a 38ª melhor universidade do mundo, sendo a mais bem colocada no Brasil e na América Latina e tendo melhorado 49 posições em relação a janeiro deste ano.

Para além da discussão do mérito de tal ranqueamento, me pergunto: Como é possível entender a dissonância entre a melhora na classificação e os sérios embates políticos internos, com greves cíclicas, sendo que última terminou a pouco mais de 1 mês e meio? Na certa é muita vadiagem, pura baderna política ou maconheira, responderão os jovens-só-me-importo-comigo-de-bengalas de plantão. Mas a verdade que vejo passa bem longe dessa ótica. Partindo do pressuposto que legitima o ranqueamento, não existe um antagonismo entre as partes, mas sim, uma pergunta inquietante que salta aos olhos : Se a Usp consegue melhorar sua classificação e se manter como a melhor na américa latina, apesar de todos os seus problemas internos, em que pé estaria se houvesse de fato investimentos estatais pesados e uma boa política para a melhorar da educação superior? Veja: existem várias USPs. A que recebe dinheiro privado e perde dinheiro público através das fundações, mas que garante o mínimo de infra-estrutura adequada ao ensino. Enquanto há outra que só pouco recebe dinheiro público mas que é incapaz de manter salas de aula sem infiltrações, bem ventiladas e muito menos com acesso a equipamentos multimídia. Quem conhece a Usp sabe que me refiro aqui a FEA e a FFLCH, que utilizo com casos extremos da notória bagunça administrativa que é a Universidade de São Paulo.
É necessário que se melhore as condições de ajuda estudantil, muito criticada por quem não precisa delas, mas que são vitais para quem as utiliza. Além disso, antes que todas as faculdades da Usp corram choramingando por alguns trocados a iniciativa privada, para conseguirem garantir o bom rendimento de seus cursos, é necessário que se aumente o repasse do ICMS, a anos congelado, para a universidade pública, além de se rever a distribuição interna deste. Outro ponto importante diz respeito aos funcionários e professores da universidade, que precisam ter seu trabalho melhor remunerado e valorizado, com reais perspectivas de crescimento profissional, caso contrário somente se encontrará, a exceção de alguns mártires, entre os concursados, professores e servidores desmotivados, e entre os terceirizados e temporários, o medo de ir pra rua, ambas qualidades antagônicas ao melhor rendimento do ambiente acadêmico.

Assim, encarno o neo-hippie sonhador e requestiono seriamente: se estamos assim agora com uma escassez gritante de recursos para a educação superior – e na educação geral como um todo - onde estaríamos se nos puséssemos a valorizar o conhecimento como meta máxima a ser melhorada?

domingo, 30 de agosto de 2009

2º motivo da rosa

"A lua" - Tarsila do Amaral

Estava aqui pensando sobre algumas alfinetadas que recebi e folheando um livro de poesias me deparei com esta de Cecília Meireles, dedicada ao Mário de Andrade. Céus! Me parece que cada facada que ouvi, e outras não ditas, é uma palavra dessa poesia...

Por mais que te celebre, não me escutas,
embora em forma e nácar se assemelhes
à concha soante, à musical orelha
que grava o mar nas íntimas volutas.

Deponho-te em cristal, defronte a espelhos,
sem eco de cisternas ou de grutas...
Ausências e cegueiras absolutas
ofereces às vespas e às abelhas.

E a quem te adora, ó surda e silenciosa,
e cega e bela e interminável rosa
que em tempo e aroma e verso te transmutas!

Sem terra nem estrelas brilhas, presa
a meu sonho, insensível à beleza
que és e não sabes, porque não me escutas...
* * * * *

"Eu não devia te dizer mas essa lua, mas esse conhaque, botam a gente comovido como o diabo" (Poema das sete faces)

sábado, 29 de agosto de 2009

Béradêro

Já faz algum tempo que sempre escuto pessoas me falarem sobre essa música do Chico César. Na verdade costumavam me declamar a letra, que é ótima. Hoje me lembrei disso e baixei o primeiro álbum dele "Aos Vivos", lançado em 1995, cujo primeira faixa é esta. Resolvi então dar uma olhada no youtube e encontrei essa versão dele com a Jazz Sinfônica, em uma apresentação no Palace, em junho de 1996, no extinto Kaiser Bock Winter Festival. Confiram:


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Os olhos tristes da fita
Rodando no gravador
Uma moça cosendo roupa
Com a linha do Equador
E a voz da Santa dizendo
O que é que eu tô fazendo
Cá em cima desse andor

A tinta pinta o asfalto
Enfeita a alma motorista
É a cor na cor da cidade
Batom no lábio nortista
O olhar vê tons tão sudestes
E o beijo que vós me nordestes
Arranha céu da boca paulista

Cadeiras elétricas da baiana
Sentença que o turista cheire
E os sem amor os sem teto
Os sem paixão sem alqueire
No peito dos sem peito uma seta
E a cigana analfabeta
Lendo a mão de Paulo Freire

A contenteza do triste
Tristezura do contente
Vozes de faca cortando
Como o riso da serpente
São sons de sins, não contudo
Pé quebrado verso mudo
Grito no hospital da gente

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Lei de Anistia

Hoje hoje a lei de anistia, sancionada pelo ilegítimo presidente João Figueiredo, completa 30 anos, envolta de um debate a respeito de sua aplicabilidade em relação aos crimes de tortura executados por agentes de nossa ditadura. Como expoentes do debate temos, de um lado, o atual ministro de justiça Tarso Genro, e de outro, o atual ministro de defesa Nelson Jobim. Para um, os crimes de tortura jamais poderiam ser enquadrados pela lei por se tratarem de crimes comuns e não políticos, sendo que mesmo durante a vigência da ditadura ,a prática da tortura, no âmbito da lei, sempre foi considerada crime. Para outro, a lei de anistia é caso encerrado. Ela veio para reconciliar nosso país garantindo uma anistia geral e irrestrita para ambos os lados, sendo que não se cabe o atual debate por não se poder "desanistiar" alguém que foi anistiado de seus crimes.

Quanto a mim penso o seguinte: já é mais que a hora desse país reabrir os casos de tortura e passar, não só na esfera simbólica, mas na criminal, a julgar os ex-agentes e ex-comandantes que cometeram inescrupolosos crimes. Por mais que a lei de anistia tenha sido importante para a redemocratização do país, ela jamais pode ser vista como imutável e deveria ser revista. Não considerar isso é legitimar a própria ditadura, ao passo em que se continua a julgar como criminosos, anistiados, as pessoas inocentes e vitimas dos anos de chumbo. Se por um lado temos agentes e comandantes que agiam no interesse do governo subversivo, de outro temos guerrilheiros e grupos armados que lutavam para derrubar o regime de exceção, mas em meio a tudo isso encontram-se também inúmeros artistas que tiveram que deixar país por sua arte e suas ideias, outros tantas inúmeras pessoas presas pelo envolvimento com o movimento estudantil, e mais outras tantas pessoas que nada tinham a ver com política mas que foram presas e torturadas, por erros da inteligência das forças armadas. O que dizer de uma lei que compara como igualmente criminosos Chico Buarque de Holanda e Carlos Alberto Ustra, Caetano Veloso e Gilberto Gil, e Sérgio Paranhos Fleury, entre outros igualmente anistiados?

Reclama-se ainda das indenizações hoje concedidas a quem foi prejudicado pelo regime militar. É possível que exista um certo exagero nessas ações, entretanto, é mais do que legítimo reparar, financeiramente, quem teve sua vida destruída durante àquele período. Pessoas que tiveram que deixar o país e suas profissões para não serem torturadas, famílias cujos entes queridos foram assassinados pelos agentes do estado, e tantas e tantas outras que foram brutalizadas nos porões da ditadura, e que ainda hoje sofrem pelas sequelas físicas (infertilidade, paralisia, defeitos físicos, ...) e psicológicas resultantes de seus interrogatórios.

Já é mais que a hora desse país passar a julgar, a exemplo da justiça argentina, os crimes dos ex-agentes, comandantes e governadores do governo que subverteu nossa democracia em 1964 e instaurou um regime de exceção. Porém , mais do que isso é um imperativo que todos os remanescentes arquivos da ditadura sejam desclassificados como confidenciais e sejam abertos para conhecimento público. É um absurdo que continuem lacrados, mesmo após dois presidentes que foram perseguidos pelo regime militar (FHC e Lula). Sem eles a história do país fica comprometida e a consolidação de nossa democracia, fragilizada.

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Tristeza

Hoje não estou vendo a vida cotidiana com bons olhos. E na procura de algo que me animasse encontrei essa maravilha. É uma apresentação do Baden Powell ainda jovem, em Berlim, filmada para um documentário. De fato, era tudo que precisava.

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Tristeza por favor vá embora, minha alma que chora
Está vendo o meu fim...Fez do meu coração a sua moradia
Já é demais o meu penar, quero voltar àquela vida de alegria
Quero de novo cantar

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

O Solitário

"The dog", Goya
Para mim é odioso seguir e também guiar.
Obedecer? Não! E tampouco - governar!
Quem não é terrível para si, a ninguém inspira terror:
E somente quem inspira terror é capaz de comandar.
Para mim já é odioso comandar a mim mesmo!
Gosto, como os animais da floresta e do mar,
De por algum tempo me perder,
De permanecer num amável recanto a cismar,
E enfim me chamar pela distância,
Seduzindo-me para voltar a mim.

Nietzsche
Tradução de Paulo César de Souza

Um fio de esperança


Um salve ao poder judiciário de nossos hermanos do sul. Por decisão da suprema corte argentina desde de ontem o porte de pequenas quantidades de maconha por usuários deixa de ser crime no país. A corte considerou como inconstitucional a criminalização do consumo da maconha por maiores de idade que o façam em local privado. Entretanto, o comércio e o uso em locais públicos continua sendo crime, mas já é um grande passo no debate sobre as drogas no país.
Não poderia deixar passar batido tal notícia. Em oposição direta ao poder judiciário argentino, enquanto lá se descriminaliza o uso, o nosso vem sistematicamente censurando - sim é a palavra mais do que certa para descrever isso - a realização da mundial "Marcha da Maconha" na maioria dos estados, pela suposição, fictícia, de apologia ao consumo da droga. Para nós resta ao menos um ex-presidente (FHC) que tem se proposto a discutir abertamente o tema em fóruns sul americanos.
Além disso, nessa mesma semana começou a ser vinculado em algumas redes de televisão - as que aceitaram - do estado estadunidense da Califórnia uma propaganda em prol da completa legalização da maconha. Lá, onde o uso terapêutico é legal a anos, existe um ostensivo movimento que enxerga na cannabis a solução para os problemas econômicos do estado.
E não é para menos: a cannabis sativa tem diversos fins com utilidade industrial. A fibra da planta é muito resistente e foi amplamente utilizada até o início do século passado quando passou a ser perseguida. Para-quedas, cordas de navio, e diversos outros produtos derivavam da cannabis, conhecida também como cânhamo. Pode-se também fabricar papel e diga-se de passagem com até 1/6 da área que normalmente se utiliza nos processos de hoje em dia.
O óleo da planta é igualmente bom e de também vasta aplicação industrial - algo como o óleo da mamona. Há seus claros fins recreativos, medicinais e ornamentais - sim é uma bela e exótica planta. Enfim, a legalização da produção e comercialização da cannabis traria um aumento de empregos e de receita gerada pelos impostos, além de tornar disponível o dinheiro atual que é investido em seu combate.
Quanto a mim, concordo e também defendo esta tese, por mais que me contente por hora em descriminalizar seu uso.
Este é um tema delicado e conflituoso e merece outros posts mais específicos. Escreverei mais.

Pequeno Tesouro

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A poucas semanas atrás, antes que essa gripe maldita me atormentasse, comecei a tirar a música "Último Desejo", de Noel Rosa, na minha aula de canto. Pesquisando no youtube alguma versão pra me guiar na complicada melodia me deparei com isto aqui. Meu Deus!!!!!!!!!!! É estonteante, maestral, gigantesca essa versão apresentada em um especial da Tv Globo em 1975 homenageando o , talvez , já um pouco esquecido Noel Rosa. A música casa tão bem com a Maysa, com seu jeito e voz , e o acompanhamento na gaita de Rildo Hora é tão lindo e inusitado, que não conseguia fazer nada mais do que olhar frisado ao vídeo quase sem piscar, e por isso compartilho e divulgo aqui.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Lei antifumo


A quase um mês entrou em vigor esta lei que baniu de bares e restaurantes, entre outros locais públicos total ou parcialmente fechados, qualquer derivado do tabaco.
E agora que todos já estão se acostumando com essa abusiva ideia desmascaram-se os argumentos oportunistas.
Antes de ser aprovada donos de bares, restaurantes e afins clamavam a pleno vapor a falência imediata de quase todo o setor que se seguiria a lei. Ora, é óbvio que isto não aconteceria, a maioria da população é de não-fumantes, mesmo sendo os fumantes um público-alvo que não pode ser desconsiderado em seu poder de compra. Entretanto, já não se pode dizer o mesmo de donos de tabacarias que devem estar passando por mal bucados.
Quanto ao cristão sentimento de salvar a saúde dos indefesos garçons não-fumantes percebe-se o oportunismo desse argumento ao, de forma diametralmente oposta, desconsiderar então a saúde dos carcereiros não-fumantes, já que única exceção da lei vale para os presídios.
O que me leva para o próximo ponto: a quem de fato quer agradar? A lei veio para salvaguardar a saúde de todos os cidadãos, excluindo-se portanto os presos não-fumantes e diga-se de passagem, a maioria da extrema periferia da capital, onde o único braço de serviços do estado presente é polícia, quando muito, e onde não se pode esperar haver fiscalização anti-fumo.

Há ainda por de trás de todos os argumentos favoráveis a lei uma espécie de revanchismo. Os fumantes há décadas , apesar que cada vez menos, monopolizavam os espaços públicos fechados com suas tragadas, e os incomodados se afastassem. Assim, inverte-se a equação, para gozo geral dos anti-tabagistas de plantão,que gritam vitoriosos em uníssono: "Vocês vão ter que nos engolir!".
O que mais me assusta nessa ideia é que o ódio armazenado é tão grande que não se importam em apoiar e defender uma proposta por demais autoritária. "Autoritária não! Democrática! É para o bem da maioria!" retrucarão outros, mesmo que a democracia seja um sistema que para além de garantir o interesse da maioria, sirva para impedir que esta massacra suas minorias (lembrem o nazismo: Hitler foi eleito). Veja: uma coisa é restringir severamente o fumo em locais públicos fechados, outra completamente diferente é resolver o problema banindo de todo e qualquer lugar toda uma parcela significativa da população que faz uso legal de determinada substância. O ponto aqui é simples: deveria haver a possibilidade de locais destinados exclusivamente ao público fumante, que seriam sem sombra de dúvida uma espécie de nicho de mercado. Do que tem medo? Que ao permitir um direito democrático como esse a maioria dos bares e casas noturnas se rotulariam como destinadas ao fumo? O que teriam a ganhar se a maioria da população é de não fumantes. De outra forma continuaria tudo no mesmo? Ora, o estado possui outros meios, que não seja a repressão, para garantir seus interesses. Todos esses locais são empresas privadas que visam o lucro, agem de acordo com a lógica do capital, e portanto caberia ao estado impor uma sobretaxa dissuasória aos mesmos, ou oferecer incentivos fiscais, na forma de abatimento de taxas, aos estabelecimentos que espontâneamente proibissem o fumo. Mas , obviamente, aparecer para a população como um fidalgo cavaleiro que luta por sua saúde gera mais votos do que o sensato administrador que garante o direito de todos.
Por fim, desabafo: Estou de saco cheio. Sou fumante, apesar de pretender parar, e sim, sinto falta de poder ir a um bar com amigos para escutar uma música ao vivo, bebendo algo alcoólico e fumando um cigarro. Prazer este que me é negado por lei. Se isto não é um dos passos em direção para a matrix, o estado orwelliano, me digam, o que é?

*
* *

"... vou formigando e fumando - que se danem os preceitos! -
alucinando e pensando: Ser livre para ser preso? ..."
Letra do Dessamba (de minha autoria)

Abertura

Depois de muito -MUITO MESMO! - prolongar a idéia de manter um blog, finalmente o faço, e a partir de hoje irei escrever aqui sobre o que me der vontade, cantando idéias, achares, arte e política deste, e não só, canto de concreto.
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"...SE PREPAREM ...
uahahahahahaha!"
Scar, Rei Leão (Disney)

E assim abro este blog como grandioso poema "Ode Triunfal", de Álvaro de Campos (Fernando Pessoa):
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À dolorosa luz das grandes lâmpadas eléctricas da fábrica
Tenho febre e escrevo.
Escrevo rangendo os dentes, fera para a beleza disto,
Para a beleza disto totalmente desconhecida dos antigos.
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Ó rodas, ó engrenagens, r-r-r-r-r-r-r eterno!
Forte espasmo retido dos maquinismos em fúria!
Em fúria fora e dentro de mim,
Por todos os meus nervos dissecados fora,
Por todas as papilas fora de tudo com que eu sinto!
Tenho os lábios secos, ó grandes ruídos modernos,
De vos ouvir demasiadamente de perto,
E arde-me a cabeça de vos querer cantar com um excesso
De expressão de todas as minhas sensações,
Com um excesso contemporâneo de vós, ó máquinas!
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Em febre e olhando os motores como a uma Natureza tropical -
Grandes trópicos humanos de ferro e fogo e força -
Canto, e canto o presente, e também o passado e o futuro,
Porque o presente é todo o passado e todo o futuro
E há Platão e Virgílio dentro das máquinas e das luzes eléctricas
Só porque houve outrora e foram humanos Virgílio e Platão,
E pedaços do Alexandre Magno do século talvez cinquenta,
Átomos que hão-de ir ter febre para o cérebro do Ésquilo do século cem,
Andam por estas correias de transmissão e por estes êmbolos e por estes volantes,
Rugindo, rangendo, ciciando, estrugindo, ferreando,
Fazendo-me um acesso de carícias ao corpo numa só carícia à alma.
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Ah, poder exprimir-me todo como um motor se exprime!
Ser completo como uma máquina!
Poder ir na vida triunfante como um automóvel último-modelo!
Poder ao menos penetrar-me fisicamente de tudo isto,
Rasgar-me todo, abrir-me completamente, tornar-me passento
A todos os perfumes de óleos e calores e carvões
Desta flora estupenda, negra, artificial e insaciável!
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Fraternidade com todas as dinâmicas!
Promíscua fúria de ser parte-agente
Do rodar férreo e cosmopolita Dos comboios estrénuos,
Da faina transportadora-de-cargas dos navios,
Do giro lúbrico e lento dos guindastes,
Do tumulto disciplinado das fábricas,
E do quase-silêncio ciciante e monótono das correias de transmissão!
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Horas europeias, produtoras, entaladas
Entre maquinismos e afazeres úteis!
Grandes cidades paradas nos cafés,
Nos cafés - oásis de inutilidades ruidosas
Onde se cristalizam e se precipitam
Os rumores e os gestos do Útil
E as rodas, e as rodas-dentadas e as chumaceiras do Progressivo!
Nova Minerva sem-alma dos cais e das gares!
Novos entusiasmos de estatura do Momento!
Quilhas de chapas de ferro sorrindo encostadas às docas,
Ou a seco, erguidas, nos planos-inclinados dos portos!
Actividade internacional, transatlântica, Canadian-Pacific!
Luzes e febris perdas de tempo nos bares, nos hotéis,
Nos Longchamps e nos Derbies e nos Ascots,
E Piccadillies e Avenues de L'Opéra que entram
Pela minh'alma dentro!
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Hé-lá as ruas, hé-lá as praças, hé-lá-hô la foule!
Tudo o que passa, tudo o que pára às montras!
Comerciantes; vários; escrocs exageradamente bem-vestidos;
Membros evidentes de clubes aristocráticos;
Esquálidas figuras dúbias; chefes de família vagamente felizes
E paternais até na corrente de oiro que atravessa o colete
De algibeira a algibeira!
Tudo o que passa, tudo o que passa e nunca passa!
Presença demasiadamente acentuada das cocotes
Banalidade interessante (e quem sabe o quê por dentro?)
Das burguesinhas, mãe e filha geralmente,
Que andam na rua com um fim qualquer;
A graça feminil e falsa dos pederastas que passam, lentos;
E toda a gente simplesmente elegante que passeia e se mostra
E afinal tem alma lá dentro!
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(Ah, como eu desejaria ser o souteneur disto tudo!)
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A maravilhosa beleza das corrupções políticas,
Deliciosos escândalos financeiros e diplomáticos,
Agressões políticas nas ruas,
E de vez em quando o cometa dum regicídio
Que ilumina de Prodígio e Fanfarra os céus
Usuais e lúcidos da Civilização quotidiana!
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Notícias desmentidas dos jornais,
Artigos políticos insinceramente sinceros,
Notícias passez à-la-caisse, grandes crimes -
Duas colunas deles passando para a segunda página!
O cheiro fresco a tinta de tipografia!
Os cartazes postos há pouco, molhados!
Vients-de-paraître amarelos como uma cinta branca!
Como eu vos amo a todos, a todos, a todos,
Como eu vos amo de todas as maneiras,
Com os olhos e com os ouvidos e com o olfacto
E com o tacto (o que palpar-vos representa para mim!)
E com a inteligência como uma antena que fazeis vibrar!
Ah, como todos os meus sentidos têm cio de vós!
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Adubos, debulhadoras a vapor, progressos da agricultura!
Química agrícola, e o comércio quase uma ciência!
Ó mostruários dos caixeiros-viajantes,
Dos caixeiros-viajantes, cavaleiros-andantes da Indústria,
Prolongamentos humanos das fábricas e dos calmos escritórios!
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Ó fazendas nas montras! Ó manequins! Ó últimos figurinos!
Ó artigos inúteis que toda a gente quer comprar!
Olá grandes armazéns com várias secções!
Olá anúncios eléctricos que vêm e estão e desaparecem!
Olá tudo com que hoje se constrói, com que hoje se é diferente de ontem!
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Eh, cimento armado, beton de cimento, novos processos!
Progressos dos armamentos gloriosamente mortíferos!
Couraças, canhões, metralhadoras, submarinos, aeroplanos!
Amo-vos a todos, a tudo, como uma fera.
Amo-vos carnivoramente.
Pervertidamente e enroscando a minha vista
Em vós, ó coisas grandes, banais, úteis, inúteis,
Ó coisas todas modernas,
Ó minhas contemporâneas, forma actual e próxima
Do sistema imediato do Universo!
Nova Revelação metálica e dinâmica de Deus!
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Ó fábricas, ó laboratórios, ó music-halls, ó Luna-Parks,
Ó couraçados, ó pontes, ó docas flutuantes -
Na minha mente turbulenta e encandescida
Possuo-vos como a uma mulher bela,
Completamente vos possuo como a uma mulher bela que não se ama,
Que se encontra casualmente e se acha interessantíssima.
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Eh-lá-hô fachadas das grandes lojas!
Eh-lá-hô elevadores dos grandes edifícios!
Eh-lá-hô recomposições ministeriais!
Parlamentos, políticas, relatores de orçamentos,
Orçamentos falsificados!
(Um orçamento é tão natural como uma árvore
E um parlamento tão belo como uma borboleta).
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Eh-lá o interesse por tudo na vida,
Porque tudo é a vida, desde os brilhantes nas montras
Até à noite ponte misteriosa entre os astros
E o mar antigo e solene, lavando as costas
E sendo misericordiosamente o mesmo
Que era quando Platão era realmente Platão
Na sua presença real e na sua carne com a alma dentro,
E falava com Aristóteles, que havia de não ser discípulo dele.
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Eu podia morrer triturado por um motor
Com o sentimento de deliciosa entrega duma mulher possuída.
Atirem-me para dentro das fornalhas!
Metam-me debaixo dos comboios!
Espanquem-me a bordo de navios!
Masoquismo através de maquinismos!
Sadismo de não sei quê moderno e eu e barulho!
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Up-lá hô jockey que ganhaste o Derby,
Morder entre dentes o teu cap de duas cores!
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(Ser tão alto que não pudesse entrar por nenhuma porta!
Ah, olhar é em mim uma perversão sexual!)
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Eh-lá, eh-lá, eh-lá, catedrais!
Deixai-me partir a cabeça de encontro às vossas esquinas.
E ser levado da rua cheio de sangue
Sem ninguém saber quem eu sou!
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Ó tramways, funiculares, metropolitanos,
Roçai-vos por mim até ao espasmo!
Hilla! hilla! hilla-hô!
Dai-me gargalhadas em plena cara,
Ó automóveis apinhados de pândegos e de...,
Ó multidões quotidianas nem alegres nem tristes das ruas,
Rio multicolor anónimo e onde eu me posso banhar como quereria!
Ah, que vidas complexas, que coisas lá pelas casas de tudo isto!
Ah, saber-lhes as vidas a todos, as dificuldades de dinheiro,
As dissensões domésticas, os deboches que não se suspeitam,
Os pensamentos que cada um tem a sós consigo no seu quarto
E os gestos que faz quando ninguém pode ver!
Não saber tudo isto é ignorar tudo, ó raiva,
Ó raiva que como uma febre e um cio e uma fome
Me põe a magro o rosto e me agita às vezes as mãos
Em crispações absurdas em pleno meio das turbas
Nas ruas cheias de encontrões!
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Ah, e a gente ordinária e suja, que parece sempre a mesma,
Que emprega palavrões como palavras usuais,
Cujos filhos roubam às portas das mercearias
E cujas filhas aos oito anos - e eu acho isto belo e amo-o! -
Masturbam homens de aspecto decente nos vãos de escada.
A gentalha que anda pelos andaimes e que vai para casa
Por vielas quase irreais de estreiteza e podridão.
Maravilhosamente gente humana que vive como os cães
Que está abaixo de todos os sistemas morais,
Para quem nenhuma religião foi feita,
Nenhuma arte criada,
Nenhuma política destinada para eles!
Como eu vos amo a todos, porque sois assim,
Nem imorais de tão baixos que sois, nem bons nem maus,
Inatingíveis por todos os progressos,
Fauna maravilhosa do fundo do mar da vida!
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(Na nora do quintal da minha casa
O burro anda à roda, anda à roda,
E o mistério do mundo é do tamanho disto.
Limpa o suor com o braço, trabalhador descontente.
A luz do sol abafa o silêncio das esferas
E havemos todos de morrer,
Ó pinheirais sombrios ao crepúsculo,
Pinheirais onde a minha infância era outra coisa
Do que eu sou hoje...)
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Mas, ah outra vez a raiva mecânica constante!
Outra vez a obsessão movimentada dos ónibus.
E outra vez a fúria de estar indo ao mesmo tempo dentro de todos os comboios
De todas as partes do mundo,
De estar dizendo adeus de bordo de todos os navios,
Que a estas horas estão levantando ferro ou afastando-se das docas.
Ó ferro, ó aço, ó alumínio, ó chapas de ferro ondulado!
Ó cais, ó portos, ó comboios, ó guindastes, ó rebocadores!
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Eh-lá grandes desastres de comboios!
Eh-lá desabamentos de galerias de minas!
Eh-lá naufrágios deliciosos dos grandes transatlânticos!
Eh-lá-hô revoluções aqui, ali, acolá,
Alterações de constituições, guerras, tratados, invasões,
Ruído, injustiças, violências, e talvez para breve o fim,
A grande invasão dos bárbaros amarelos pela Europa,
E outro Sol no novo horizonte!
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Que importa tudo isto, mas que importa tudo isto
Ao fúlgido e rubro ruído contemporâneo,
Ao ruído cruel e delicioso da civilização de hoje?
Tudo isso apaga tudo, salvo o Momento,
O Momento de tronco nu e quente como um fogueiro,
O Momento estridentemente ruidoso e mecânico,
O Momento dinâmico passagem de todas as bacantes
Do ferro e do bronze e da bebedeira dos metais.
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Eia comboios, eia pontes, eia hotéis à hora do jantar,
Eia aparelhos de todas as espécies, férreos, brutos, mínimos,
Instrumentos de precisão, aparelhos de triturar, de cavar,
Engenhos brocas, máquinas rotativas!
Eia! eia! eia!
Eia electricidade, nervos doentes da Matéria!
Eia telegrafia-sem-fios, simpatia metálica do Inconsciente!
Eia túneis, eia canais, Panamá, Kiel, Suez!
Eia todo o passado dentro do presente!
Eia todo o futuro já dentro de nós! eia!
Eia! eia! eia!
Frutos de ferro e útil da árvore-fábrica cosmopolita!
Eia! eia! eia! eia-hô-ô-ô!
Nem sei que existo para dentro.
Giro, rodeio, engenho-me.
Engatam-me em todos os comboios.
Içam-me em todos os cais.
Giro dentro das hélices de todos os navios.
Eia! eia-hô! eia!
Eia! sou o calor mecânico e a electricidade!
Eia! e os rails e as casas de máquinas e a Europa!
Eia e hurrah por mim-tudo e tudo, máquinas a trabalhar, eia!
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Galgar com tudo por cima de tudo! Hup-lá!
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Hup-lá, hup-lá, hup-lá-hô, hup-lá!
Hé-la! He-hô! H-o-o-o-o!
Z-z-z-z-z-z-z-z-z-z-z-z!
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Ah não ser eu toda a gente e toda a parte!
Londres, 1914 - Junho