Prof.ª Maria Luiza Redentora:

"...Mesmo que para isso tenha que dar minha cara a tapa, e lançar-me na guerra sem armadura,
vou peitar isso tudo mesmo que fique aqui só e insegura..."

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quarta-feira, 17 de março de 2010

Amor sublime, o amor terreno.

A tempos que eu não o lia. Pesquisando agora em virtude do texto que estou escrevendo (não esse do blog!) econtrei essa tradução do Cântico dos Cânticos. Notei uma simplificação do estilo, em relação a uma tradução direto do grego que li (que é mais rebuscada), mas achei simpática. É claro que a maioria das comparações são risíveis -outros tempos, outras culturas, mas com a mesma pegada - e que podem ser vistas como romanticozinhas-de -novela, mas o que é exaltado nessa parte da bíblica é, para mim, inequivocadamente a consagração do sublime do amor terreno, do amor carnal. Agora o porque um texto assim estar na bíblia? Isso eu já não sei... Talvez para alimentar, gozando na dor, a grande culpa? Vai saber...
Como é extenso vou publicar um canto a cada post a seguir.



Cântico dos Cânticos
Bíblia - Antigo Testamento




1 O Cântico dos Cânticos de Salomão.


PRIMEIRO CANTO

Anseios de amor

Ela .

2 Sua boca me cubra de beijos! São mais suaves que o vinho tuas carícias,

3 e mais aromáticos que teus perfumes
é teu nome, mais que perfume derramado;
por isso as jovens de ti se enamoram.

4 Leva-me contigo! Corramos!
O rei introduziu-me em seus aposentos.

Coro.

Queremos contigo exultar de gozo e alegria,
celebrando tuas carícias, superiores ao vinho.
Com razão as jovens de ti se enamoram.

Canção da amada

Ela.

5 Sou morena, porém graciosa,
ó filhas de Jerusalém,
como as tendas de Cedar,
como os pavilhões de Salomão.

6 Não me olheis com desdém, por eu ser morena!
Foi o sol que me bronzeou:
os filhos de minha mãe, aborrecidos comigo,
puseram-me a guardar as vinhas;
a minha própria vinha não pude guardar.

Ambição do amor

Ela.

7 Indica-me, amor de minha alma: onde pastoreias?
Onde fazes repousar teu rebanho ao meio-dia?
Para eu não parecer uma mulher perdida,
seguindo os rebanhos de teus companheiros.

Coro.

8 Se não o sabes, ó mais bela das mulheres,
segue os rastos das ovelhas
e leva teus cabritos a pastar
perto do acampamento dos pastores!

Ele.

9 Às parelhas das carruagens do Faraó
eu te comparo, minha amada.

10 Graciosas são tuas faces entre os brincos,
e teu pescoço entre colares.

11 Faremos para ti brincos de ouro
com filigranas de prata.

Exaltação do amor

Ela.

12 Enquanto o rei está em seu divã,
meu nardo exala seu perfume.

13 O meu amado é para mim
como bolsa de mirra sobre meus seios;

14 o meu amado é para mim
como um cacho florido de alfena dos vinhedos de Engadi.

Ele.

15 Como és formosa, minha amada!
Como és formosa, com teus olhos de pomba!

Ela.

16 E tu, meu amado, como és belo,
como és encantador!
O verde gramado nos sirva de leito!

17 Cedros serão as vigas de nossa casa,
e ciprestes, as paredes.

Galanteios

Ela.

1 Eu sou o narciso de Saron,
o lírio dos vales.

Ele .

2 Sim, como o lírio entre espinhos
é, entre as jovens, a minha amada.

Ela.

3 Como a macieira entre árvores silvestres
é, entre os jovens, o meu amado.
À sua sombra eu quisera sentar-me,
pois seu fruto é saboroso ao meu paladar.

Amor apaixonado

Ela.

4 Ele me conduziu à casa do banquete,
onde a bandeira era para mim sinal de amor.
5 Restaurai-me as forças com tortas de uva,
revigorai-me com maçãs,
porque desfaleço de amor!

6 Sua esquerda apóia minha cabeça,
e sua direita me abraça.

Ele.

7 Conjuro-vos, ó filhas de Jerusalém,
pelas gazelas ou corças do campo,
que não acordeis nem desperteis a amada,
antes que ela queira!

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Máxima do dia

Quando cidadãos revoltados se expressam contra esquemas de corrupção, afirmando que nunca antes na história desse país - ou mesmo da humanidade - houve tanta roubalheira, das duas uma: ou é recém-nascido, ou pior, não estudou história.

Goya, "Two Old Woman Eating"

domingo, 21 de fevereiro de 2010

De volta

De volta das férias e do carnaval volto a postar. E meu assunto é: o mesmo que o de meu amigo no blog dele.



Antes do carnaval, durante o período de chuvas, escrevi este texto abaixo, que está incompleto porque não achei bom. Mas agora vem bem ao caso diante das certezas que me iluminaram durante o carnaval na praia. Comento logo em seguida.

Era fim de tarde. A chuva, torrencial, começara, igual aos dias anteriores e aos seguintes. Poderia continuar ao computador? Sem ele o que fazer? Assistir TV...mas também precisa de energia. Ouvir música, notícias...arre! Também não! Saco! Até que diante dos meus olhos a tela, imperativa, se apagou e o som de transformadores estourando se ouvia ao longe. Uma árvore acabara de cair na rede elétrica. Após o susto do apagão possui-me um sentimento de desespero sem causa, angústia infundada: a luz tardaria a voltar. O que mais me impressionou, foi que ao cair da noite, sob luz de velas, tudo havia se transformado. A família antes separada, em cada cômodo em seus computadores ou televisores, agora estava reunida, distraindo-se com o violão que eu tocava e entretendo-se com um bom carteado, em meio a conversas. Fui para a varanda fumar um cigarro e me senti na praia. Não exatamente pela vista ou brisa que batia, mas devido a paz e tranquilidade com que eu podia deliciar-me com minha fumaça – não vou muito pro interior por isso a praia. Olhava o mundo ao redor e percebia que todos estavam correndo, eletrizados eles próprios pela corrente elétrica que abastece seus objetos. Já mais a noite, passada a chuva, o céu estava limpo, a minha quadra inteira estava sem luz, e pude então perceber algumas estrelas no céu, muitas mais do que de costume – até porque não olho para o céu em São Paulo quando estou plugado na rede elétrica de coisas. Isso voltou a repetir-se nos dois dias seguintes.

Essa mesma certeza, que se apresentou pra mim nesses dias, foi novamente confirmada agora que passei o feriado na praia. Todo o desenvolvimento deste nosso admirável mundo moderno é diametralmente oposto a tudo que diz respeito a natureza, a nossa natureza, a natureza humana, que quando ignorada leva a isso que temos hoje: a loucura, aos crescentes problemas psíquicos, a depressão, a total e completa impossibilidade de uma vida tranquila, serena, vivida, gozada e feliz. Não sou muito metido a neo-hyppie, gosto e tento ver com bons olhos as tecnologias (vide que estou escrevendo isso na internet) mas no atual estágio e nas perspectivas futuras pra onde caminha o mundo globalizado, estamos tão distantes, e cada vez mais, das únicas coisas que podem realmente trazermos uma vida boa. Pois é, que desperdício de vida...

O diretor japonês Akira Kurosawa tem um filme chamado "Sonhos", em que são mostrados diversos contos. O último é esse acima. Sem dúvida compartilho dessa utopia, dessa visão sonhadora de vida perfeita.


"Não dá pra ser feliz, não dá pra ser feliz, não dá pra ser feliz, não dá pra ser feliz" (Gonzaguinha)

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

A respeito do horror

Portão principal de Auschwitz I - na placa lê-se: "O trabalho liberta"
"Há terror e pânico em nossa cidade...
A causa de tudo isso são os trens lotados de judeus que passam por nossa cidade rumo a Belzec. Os judeus são amontoados em vagões de gado fechados, de cem a cento e cinquenta em cada vagão. Belzec fica localizada numa área florestal, e é lá que todos são mortos. Como são assassinados, isso não sabemos. Há rumores de que são envenenados com gás, outros dizem que são eletrocutados, queimados ou baleados. Uma coisa é certa, de lá não há volta."
Clara Schwarz, 15 anos, Polônia, Verão de 1942


Escrevo este post nauseado pela rápida pesquisa que realizei devido aos 65 anos da libertação dos campos de concentração nazistas de Auschwitz-Birkenau, pelas tropas soviéticas , no dia 27 de Janeiro de 1945.
Me é viceralmente perturbador ler os relatos de sobreviventes e me expor as fotos documentais da época. Meu sangue ferve em dor e se apimenta de desejos de vingança, carnal, a fim de levar a cabo uma outra guerra contra pessoas a tempos mortas ou já bastante envelhecidas. Investigando minha alma posso compreender claramente, em mim, o impulso que leva tantos jovens a guerra, e que provavelmente seria similar a outros tantos jovens que estariam do outro lado deste conflito que eu poderia ingressar.
O pior é: me considero pacifista, mas percebi que não sou. Dou graças a deus, sem crer em tal mentira, que muitos deram suas vidas para derrotar a Alemanha Nazista, e que puderam ajudar , enfim, os que resistiram aos horrores da Shoah -melhor dizer Holocausto, não foram só Judeus que morreram, apesar de serem o grupo amplamente maioritário.
Neste dia em que se relembra este feito, ofereço meus pensamentos as incontáveis (não é pleonasmo) vitimas cruelmente assassinadas; aos corajosos combatentes que morreram ajudando a extirpar esse mal - soou bem nazista isso, não? pois esse é o tamanho do meu ódio- e aos outros tantos veteranos e sobreviventes que carregam/carregaram no corpo e na mente as marcas desses tempos abomináveis.

"Queria gritar ao tempo que se demorasse, e não corresse. Queria recapturar o meu ano passado e guardá-lo para mais tarde, para a nova vida. Meu segundo sentimento hoje é o de força e esperança. Não sinto o menor desespero. Hoje fiz quinze anos de idade e vivo confiante no futuro, não me preocupo com ele, em vez disso tudo o que vejo diante de mim é o sol, o sol, o sol, o sol.

Yitskhok Rudashevski, Lituânia, 10 de Dezembro de 1942 (morreu por mãos nazistas por volta de outubro de 1943)